Um poética
A vida dos lepidópteros,
a solidão dos astronautas,
os guarda-chuvas quebrados depois da tempestade,
um sem-teto estendendo roupas ao sol,
a hora do almoço dos operários,
os erros ortográficos nas cartas de amor,
as fotos dos desaparecidos,
os peixes sufocados.
os guarda-chuvas quebrados depois da tempestade,
um sem-teto estendendo roupas ao sol,
a hora do almoço dos operários,
os erros ortográficos nas cartas de amor,
as fotos dos desaparecidos,
os peixes sufocados.
As coisas perdidas ou deixadas a um canto,
o primeiro cão, a primeira morte,
as casinhas à beira da estrada
e quem dorme dentro delas,
as abóboras que não viraram carruagens douradas,
as últimas palavras de pessoas comuns,
a última dança de Kazuo Ohno,
a canção mais triste de Sérgio Sampaio.
A paz dos amnésicos e dos recém-nascidos,
meu destino nas cartas de tarô,
cada sístole e diástole,
o fato de dizermos sempre “até amanhã”
ou “parece que foi ontem”,
o susto dos telefones tocando fora de hora,
o milagre de chegarmos quase intactos à noite,
as aves-do-paraíso apaixonadas,
tudo o que escrevo quando tentava escrever outra coisa
e tudo o que jamais caberá neste poema.
SANTOS, Ana Costa dos. Uma poética. In: Voo breve sob o sol. São Paulo: Círculo de Poemas, 2025. p. 89.