Ausência


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar sinão a magua de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra almadiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nodoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enalaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da nevoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essencia do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguem porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do ceu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

MORAES, Vinícius de. Ausência. In: Forma e Exegese. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1935. p. 39-42. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/6783.