Um poética
A vida dos lepidópteros, a solidão dos astronautas, os guarda-chuvas quebrados depois da tempestade, um sem-teto estendendo roupas ao sol, a hora do almoço dos operários, os erros ortográficos nas cartas de amor, as fotos dos desaparecidos, os peixes sufocados. As coisas perdidas ou deixadas a um canto, o primeiro cão, a primeira morte, as casinhas à beira da estrada e quem dorme dentro delas, as abóboras que não viraram carruagens douradas, as últimas palavras de pessoas comuns, a última dança de Kazuo Ohno, a canção mais triste de Sérgio Sampaio. A paz dos amnésicos e dos recém-nascidos, meu destino nas cartas de tarô, cada sístole e diástole, o fato de dizermos sempre “até amanhã” ou “parece que foi ontem”, o susto dos telefones tocando fora de hora, o milagre de chegarmos quase intactos à noite, as aves-do-paraíso apaixonadas, tudo o que escrevo quando tentava escrever outra coisa e tudo o que jamais caberá neste poema.